venerdì 21 settembre 2007

O Sítio de Benfica: nota histórica

O sítio de Benfica, pelas suas características naturais, é habitado desde os tempos pré-históricos. São disso testemunho os vestígios arqueológicos dos períodos Paleolítico (Soeiros, Av. Gomes Pereira, Alto das Perdizes), Neolítico (Moinho das Cruzes, Boavista e Nodel) e Calcolítico (Montes Claros).

Monsanto ou Mons sacer (monte sagrado) era um local de culto no período pré-clássico. Do período romano, subsiste a estátua de um sátiro que se encontrava no Convento de S. Domingos de Benfica, hoje depositada no Museu da Cidade. Crê-se que a Quinta da Granja está instalada sobre uma vila romana e que a Estrada das Garridas está sobre um antiga ponte romana. Há ainda notícia da existência de uma ara arrimada a uma das paredes da Quinta do Marquês de Fronteira.

Da época muçulmana chegam-nos vários topónimos, como é o caso de Campolide, Carnide, Alfornel e possivelmente Benfica. A palavra BENFICA poderá ser etimologicamente árabe: Oliveira Marques sugere que o termo comprova a presença de colonos das tribos berberes Banu al Faqih ou Banu Gafiqi. De acordo com J. P. Machado o vocábulo Benfica poderá ser composto pelo étimo ben, que significa filho e pelo antropónimo ou alcunha fica, o qual por sua vez poderá derivar do termo masculino fiq, que quer dizer pessoa de elevada estatura e cujo feminino é fiqâ. Mas a origem da palavra Benfica também poderá simplesmente derivar do advérbio bem e do verbo ficar, expressando o estado físico e psicológico de bem ficar ou ficar bem e neste sentido reza a tradição que a origem da palavra poderá advir do seguinte:

- numa versão, conta-se que uma jovem pura foi raptada por um patife, que acabou por casar com ela ficando a viver nesta zona. O rei D. Pedro I tendo conhecimento do ocorrido, quando passou pela zona mandou prender e matar o marido da jovem, para punir o rapto, mas segundo parecia a jovem vivia em paz e feliz com o marido, vendo-se agora desprotegida e viúva, então o rei para minorar a situação, deu à jovem outro marido «com fartos cabedais» afirmando que «agora bem-fica, bem-fica» ;
- noutra versão, atribui-se o nome ao rei D. João I, que após ter oferecido a sua quinta de São Domingos à ordem dominicana para instalarem um convento, comentara com D. João das Regras «Aqui Bem-fica o convento».

No século XIII, o «limite antigo de Benfica» fazia parte para fins paroquiais à Igreja de São Salvador de Lisboa. Após a construção do Paço Real de Benfica, no reinado de D. Dinis, em torno do paço desenvolveu-se um núcleo populacional, que passou a designar-se, cerca de 1322, Benfica-a-Nova em oposição a Benfica-a-Antiga, isto é, ao antigo núcleo existente no lugar da Igreja de Santa Maria de Benfica. Desconhece-se, ainda, a data da fundação da freguesia de Santa Maria de Benfica, mas deverá ter procedência na época da Reconquista. A referência mais antiga a Santa Maria de Benfica data de 1337(Testamento de D. Maria de Aboim). Em 1392, já se encontra referência a Nossa Senhora do Amparo, tornando-se esta igreja, sede da Freguesia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica. Sobreviveram, deste período, umas poucas estrelas discoidais (cabeceiras de sepultura), que foram integradas na decoração de uma moradia próxima do actual santuário. A antiga igreja perdurou até ao século XIX, tendo sido inaugurada a nova igreja no dia 10 de Dezembro de 1809. Neste local onde foi edificada a Igreja de Nossa Senhora do Amparo existiram anteriormente duas igrejas: a de Santa Maria precedente da N.ª Sra. do Amparo, no Tojal e a capela de São Roque, que terá sido incorporada na citada capela no século XIV. A velha igreja, em 1815, transforma-se em capela do cemitério do adro e em 1833 são-lhe retirados os azulejos da capela-mor, sendo definitivamente destruída em 1846, para ampliar o cemitério do adro.

Em 1455, Benfica era sede de julgado no termo de Lisboa, tendo dois juízes privativos. No século XV verifica-se um crescimento do sítio de São Domingos de Benfica. Pelas Estrada de Benfica e da Estrada da Luz foi-se instalando população e ao longo destas estradas, a partir do século XVI, vão surgindo várias quintas.

Uma descrição do cura João da Matta, datada de 1758, permite-nos saber que Benfica tinha oitocentos e cinco vizinhos e três mil novecentos e sessenta e duas pessoas. Situava-se na estrada que ia para Lisboa e para Sintra, ou seja a Estrada de Benfica. A Paróquia compreendia os lugares da «Cruz da Pedra, Calhão, Monte Coxe, Calhariz, Boavista, Montijo, Alfragide, Outeyro, Cruzes, Porcalhota, Falagueyra, Amadora, Vinteyra, Caranque, Borrel, Noudel, Da Maya, Alfornel, e o lugar de Bemfica» . Pertencia ao Arcebispado de Lisboa. Tinha por orago Nossa Senhora do Amparo, com cinco altares, nomeadamente N.ª Sra. Amparo, São Miguel, São Roque, Santa Catarina e Santo António. Tinha um convento de São Domingos e nove ermidas. A terra produzia pão e vinho. Possuía juiz vinhateiro. Organizava feira livre todos os Domingos do mês de Maio, no sítio do Convento de São Domingos de Benfica. Existiam duas fontes em Benfica, uma no Convento de São Domingos, outra na Quinta de Santo Eloy.

Em 1767, a freguesia de Benfica rendia ao Patriarcado duzentos mil reis, distava de Lisboa uma légua e continuava a ter oitocentos e cinco fogos .

Quase um século depois, Paulo Perestrello da Câmara traça-nos Benfica como uma «linda povoação», com cerca de três mil a três mil e quinhentos habitantes, «cheia de palácios, pomares, casas de campo e jardins». Referencia as notáveis quintas da Palhavã (já à data arruinada), a das Laranjeiras, a do Marques da Fronteira, a do Marques de Abrantes, a de D. António de Saldanha, e a da Infanta D. Isabel Maria .

Em 1880, o Guia de Portugal, referindo-se aos subúrbios de Lisboa, menciona Benfica como um dos «sítios mais aprazíveis e frequentados pela High-life lisbonense, nos arrabaldes da capital» . Quase finda uma década, F. A. De Mattos caracteriza Benfica como uma povoação e freguesia de Nossa Senhora do Amparo, da província da Estremadura, pertencente ao 4.º bairro, sendo da comarca, distrito e patriarcado de Lisboa. Tinha três mil quinhentos e quarenta e cinco almas e oitocentos e trinta fogos. Possuía uma escola para o sexo feminino e tinha uma estação de caminho de ferro. Ficava a treze km de Lisboa .

Sítio, lugar, aldeia, paróquia, freguesia, arrabalde, termo de Lisboa, Benfica tinha uma dimensão territorial vastíssima: légua e meio de comprimento indo de Sete Rios a Belas e de Carnide ao Alto da Ajuda. A Amadora pertencia a Benfica. Benfica fez parte da Freguesia de N.ª Sra. de Ajuda e pertenceu ao Concelho de Belém (1852-1885). De acordo com o estipulado no decreto de 18 de Julho de 1885, sobre a delimitação da capital, Benfica até à Estrada da Circunvalação foi integrada em Lisboa e a parte de Benfica exterior à Estrada da Circunvalação foi integrada em Oeiras. Uma década mais tarde, essa Benfica extra Estrada da Circunvalação, passa a fazer parte de Sintra e em 1898 retorna a Oeiras, sendo integrada na freguesia civil de Carnaxide.

São Domingos de Benfica, em 1959, na sequência da divisão administrativa das freguesias e bairros de Lisboa, separa-se de Benfica, transformando-se na freguesia de São Domingos de Benfica.

Nesta exposição efectuamos uma pequena mostra da evolução do sítio de Benfica através dos mapas, começando por mostrar o termo de Lisboa até a capital alcançar Benfica; a zona de Benfica, escolhendo como pontos de comparação as zonas da Estrada de Benfica e Calhariz de Benfica, sendo possível visualizar o desenvolvimento destas zonas em quatro períodos cronológicos:
- 1904-1911, nas plantas da cidade levantadas pelo eng.º Silva Pinto;
- 1948-1960, no levantamento do Instituto Geográfico e Cadastral;
- 1970-1980, nas plantas da cidade, da Direcção Municipal de Planeamento e Gestão Urbanística da CML;
- e 1998, nos levantamentos, do Departamento de Informação Geográfica e Cadastro da CML.

Expomos ainda o Plano Director de Urbanização de Lisboa, de 1947; uma planta da cidade efectuada em 1899, que foi utilizada como base do levantamento topográfico de 1904-1911 e que apresenta as alterações efectuadas até 1948; uma carta de Lisboa e dos seus arredores de 1909 e por fim uma vista aérea de Benfica desde Sete Rios, São Domingos de Benfica, pela Estrada de Benfica, Calhariz de Benfica até às Portas de Benfica, retirada no ano 2000.

Graça Afonso

BIBLIOGRAFIA

PROENÇA, Pe. Álvaro, Benfica através dos tempos, Lisboa, 1964
CONSIGLIERI; Carlos et. Al., Pelas Freguesias de Lisboa: De Campolide … Avenidas Novas, Lisboa: CML, 2000
CONSIGLIERI; Carlos et. Al., Pelas Freguesias de Lisboa: Benfica, Carnide, Ameixoeira, Charneca, Lumiar, Lisboa: CML, 1993
CARVALHO, Gabriela et. al., Na Rota de S. Domingos de Benfica. A História e a caracterização dos lugares, Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, 2005
Igreja de Nossa Senhora do Ampara: No 175.º aniversário da sua inauguração, Lisboa, 1984
PORTUGAL, Fernando et. al., Lisboa em 1758, Lisboa, 1974
NIZA, Paulo Dias de, Portugal sacro-profano ou catalogo alfabético de todas as freguezias dos Reinos de Portugal, e Algarve…, tomo I, Lisboa, 1767
CAMARA, Paulo Perestrello da, Diccionario geographico, histórico, politico r litterario do reino de Portugal e seus domínios, tomo I, Rio de Janeiro, 1850
Guia de Portugal, vol. IV, Lisboa, 1880
Diccionario chorographico de Portugal, Lisboa, 1889
Fragmentos de um roteiro de Lisboa: Arrabaldes de Lisboa In Archivo Pittoresco, vol. VI, Lisboa, 1863
DIAS, Marina Tavares, Lisboa Desaparecida, Vol. 3, Quimera Editores, 1992
FERREIRA, Jorge et. al., Roteiro de São Domingos de Benfica, Lisboa, 1991

NOTAS

i Cf. PROENÇA, Pe. Álvaro, Benfica através dos tempos, Lisboa, 1964, p.13.
ii Cf. CONSIGLIERI; Carlos et. al., Pelas Freguesias de Lisboa: De Campolide … Avenidas Novas, Lisboa: CML, 2000, p. 37.
iii Cf. PORTUGAL, Fernando et. al., Lisboa em 1758, Lisboa, 1974, pp. 37-38.
iv Cf. NIZA, Paulo Dias de, Portugal sacro-profano ou catalogo alfabético de todas as freguezias dos Reinos de Portugal, e Algarve…, tomo I, Lisboa, 1767, pp. 92-93
v Cf. CAMARA, Paulo Perestrello da, Diccionario geographico, histórico, politico r litterario do reino de Portugal e seus domínios, tomo I, Rio de Janeiro, 1850, pp. 97-98
vi Cf. Guia de Portugal, vol. IV, Lisboa, 1880, p. 87.
vii Cf. Diccionario chorographico de Portugal, Lisboa, 1889, pp. 106-107.

2 commenti:

Scarlata ha detto...

pfff pfff pfff para certas meninas. :O

alex ha detto...

belo naco de história da cidade, ó emigra. ;)